Com sua primeira metade fechada, um arco totalmente concluído e inúmeras polêmicas, Fear The Walking Dead entrou em hiato, que será o tempo de maturação para a audiência digerir tudo que foi apresentado até o momento e dar um folego para a continuidade dos próximos 8 episódios que têm tudo para ser uma história complemente nova.

Este artigo é uma análise/crítica do todo, ao contexto da primeira metade da 4ª temporada, diferente das críticas anteriores onde se analisava cada episódio isoladamente. E no intuito de não deixar esse texto repetitivo, farei uma analise mais aberta e subjetiva dos 8 episódios como uma unidade única, elencando alguns pontos gerais.

O Reboot – Uma Série Velha de Cara Nova

Quando os produtores de FEAR anunciaram que a série passaria por um reboot total, eu fiquei apreensivo. Quando agravaram essa argumentação, acrescentando que qualquer pessoa poderia cair de paraquedas na 4ª temporada sem a necessidade de assistir as 3 temporadas anteriores, minha apreensão se tornou quase uma revolta, com tamanho insulto e desrespeito com a audiência que acompanha FEAR desde seus primórdios, que é o caso do redator.

Com altas expectativas em ver a Premiere para avaliar o resultado, que ao meu ver seria desastroso, tive que calar minha boca e me curvar a decisão sabiamente tomada pelos produtores dessa série. Com um episódio de estreia realmente inusitado e de extrema qualidade, se não fosse pela cena do último minuto eu nem lembraria que estava assistindo Fear, mas sim uma segunda série derivada de The Walking Dead, e para meu espanto, quando o novo se juntou com o velho, o resultado ficou ainda melhor.

Os episódios seguintes apenas confirmaram que a nova fórmula apostada deu certo. Sei que uma grande parte da audiência quer mais respostas sobre os acontecimentos pós-represa no final da terceira temporada, e que ficou muito insatisfeita com os rumos tomados nessa 4º temporada, sentindo-se inclusive desrespeitados. E essa parcela da audiência tem minha compreensão, mas não meu apoio.

Temos que entrar no jogo. De que adianta ficar remoendo o passado e querendo ver explicitamente os acontecimentos que se deram logo após o final da temporada anterior, se o produto entregue é de altíssima qualidade e com uma proposta de que de fato, pouco importa saber detalhadamente como tudo se deu?

Bastaram alguns diálogos esparsos explicativos para juntarmos as peças e entendermos que após o rompimento da barragem, Madison encontrou um por um de seu grupo e filhos, e que após todos se agruparem em uma caverna, rumaram ao Texas e colonizaram um Estádio de Beisebol. Saber mais que isso demandaria um temporada só para expor essa jornada que no meu ponto de vista seria muito menos interessante que o conteúdo e trama de fato apresentados nessa nova temporada.

Por fim, ressalto que mesmo com um reboot e introdução de novos personagens a trama quase que inteiramente se deu no núcleo da família Clark, ou seja, não abandonando suas origens, apenas pulando uma parte da história que, comparada com a apresentada, seria muito menos interessante. Na minha avaliação, a série ganhou pontos positivos nessa reformulação sem abandonar as suas raízes.

Os Novos Personagens e um Crossover – Uma Nova Onda de Vigor

O reboot na série veio companhado de interessantíssimos novos personagens junto com Morgan Jones de The Walking Dead – o crossover tão esperado enfim aconteceu. A interação entre os novos personagens em seu núcleo deu liga e isso ficou claro logo na premiere, com o trio Morgan, Althea (a jornalista) e Jonh Dorie (o cowboy), e um pouco mais na frente, adicionando Naomi (que já foi Laura e atualmente é June) e a pequena Charlie.

FEAR sempre contou com um elenco de ponta, belíssimas atuações e interações aprofundadas de seus personagens. Os novos personagens inseridos na trama caíram como uma luva nesse nicho de atores e personagens de qualidade, dando dinamismo à série, tirando-a de qualquer possível estagnação. Funcionou bem a escolha dos atores e a criação desses novos personagens que agregaram muito à trama e ao que tudo indicam terão um desenvolvimento ainda maior agora na segunda metade da série.

Tenho acompanhando que muitos espectadores tem criticado veementemente a presença de Morgan Jones na trama, alegando que ele parou de tumultuar a serie mãe para estragar a série derivada. Mas eu discordo, inclusive entendo que ele era o personagem certo para realizar essa transição de universo e que teria muito a acrescentar, como ficou evidenciando nesses 8 episódios.

E se alguém ainda tem alguma dúvida sobre os benefícios que Morgan trouxe a FEAR, sugiro que assista novamente e com atenção à Mid-Season Finale, e concentre-se na cena em que ele está entre Alicia e Naomi, na linha de tiro do confronto que tinha tudo para dar errado, e analise com cuidado seu discurso.

Em toda a história de seu personagem, desde sua primeira cena, eu nunca havia visto um Morgan tão lúcido, exalando toda sua experiência em palavras de sabedoria. Um dialogo realmente muito lindo entre ele e Alicia. E no final com direito a consolar a jovem órfã em seus ombros. As vezes esquecemos que estamos vendo um mundo apocalíptico, e talvez o que as pessoas mais precisem é de um pouco de atenção e afeto. Afeto esse que foi demonstrado por John Dorie também, quando se coloca na frente de sua amada e toma um balaço no peito por ela.

FEAR acertou em cheio na introdução desses seletos novos personagens, que tiveram química com elenco veterano e nos proporcionaram uma trama irreverente e fresca.

A Trama – Linhas Temporais que Colidem em um Final Coeso

Com um enredo todo entrelaçado, lastreado em mistérios que vão se juntando conforme linhas temporais diferentes vão sendo apresentadas, FEAR inovou com frescor e proporcionou à audiência uma experiencia diferente, gerando especulação e fazendo com que os espectadores fossem detetives virtuais tentando juntar os fragmentos da história.

A trama era simples, mas a forma que foi apresentada lhe tornou complexa e instigante. Basicamente o pano de fundo do enredo era que Madison e seu grupo, após os acontecimentos da 3ª temporada, colonizaram um Estádio no Texas e essa lugar caiu. De que forma ele caiu, onde estava Madison após essa queda somado a alguns mistérios do presente relacionados ao passado (como por exemplo a história de Naomi) eram as informações que tínhamos que juntar para entender nesses 8 episódios que foram apresentados.

Os roteiristas da série deram um show à parte, entregando conteúdo inteligente e de qualidade, nada mastigado de maneira a subestimar a audiência, algo que faz falta na série original. Pelas bandas de lá o conteúdo é enlatado quase como assistir uma novela e não uma série de qualidade.

Durante os 8 episódios as duvidas foram sendo geradas e paulatinamente foram resolvidas. Talvez o desfecho de cada micro mistério, não tenha agradado a todos, mas isso é resultado da especulação. Quando se especula algo, elencamos diversas suposições e quando de fato vemos o desfecho e temos a resposta, de acordo com o nível de especulação o resultado final pode ser um balde de água fria. Isso não quer dizer que o desfecho foi ruim, mas talvez fique abaixo das expectativas que foram nutridas no imaginário de cada um.

Em 8 episódios tivemos duas grandes perdas que ainda estão digeridas (ou não) por todos nós. Matar Nick e Madison (independente se o ator pediu para sair ou não) é algo ousado, principalmente a forma com que se dá essa morte. Acho que o único pecado na morte de Nick, foi que sua mãe não o tenha visto falecer. Pode ser um egoismo meu, mas como eu gostaria de ter visto a Madison – brilhantemente interpretada por Kim Dickens – ir aos prantos com o óbito seu filho mais sensível e dependente de sua proteção. O fato de Nick morrer depois de todo o sacrifício de sua mãe, meio que enfraquece tudo o que ela fez pelos filhos em seu desfecho. Mas como estamos num mundo apocalíptico, morte é algo normal e rotineiro.

Outro ponto chave é que todos os personagens que estavam na linha temporal do presente, tiveram suas motivações apresentadas, as quais agora são as justificativas para suas futuras ações no decorrer da segunda metade que está por vir. Principalmente os novos personagens, citando o exemplo de John Dorie e seu imensurável amor que sente por Laura (pra mim vai ser sempre seu nome) e sua determinação em protege-la.

O mais sublime é que em 8 episódios, FEAR fechou todas as pontas em aberto que foram soltas desde o primeiro episódio, e conseguiu concluir todo um arco, zerando novamente a história e mostrando quais serão os desenvolvimentos ocasionados pelos acontecimentos da primeira metade nos 8 episódios seguintes. Esse dinamismo de fechar um enredo numa primeira metade é muito rico e animador, deixando a audiência completamente no escuro a partir de agora, gerando novamente a tal da especulação.

A Morte de Nick e Madison – O Adeus de Dois Gigantes

Desde o primeiro episódio da primeira temporada o que eu mais gostava em FEAR era a relação de Madison com seu filho Nick, afinal sem sombra de duvida o primogênito era quem mais lhe demandava atenção e disposição. Um garoto californiano drogado e desapegado, de uma sensibilidade gigantesca, completamente o oposto de sua mãe, a personagem mais durona e determinada dessa série, uma líder genuína. Uma das cenas que mais me marcou em toda a série foi quando Madison bate em Nick no episódio 4 da primeira temporada, com uma carga emocional pesada. Ali eu percebi a conectividade que esses dois teriam no decorrer dessa história.

Perder esses dois grandes personagens, alicerces de toda a série desde seus primórdios, foi uma baque muito forte. Mas entendo que um ciclo se fechou, e não conseguiria imaginar Madison sem Nick ou Nick sem Madison, pois eles sempre foram dependentes um do outro.

O que a mantinha viva era a necessidade de cuidar de seu filho sensível, e o que o matinha vivo era justamente estar sempre sendo cuidado por sua mãe leônica, como fica muito bem explicitado num curtido dialogo dos dois (o último) apresentado no episódio 7 da quarta temporada.

Perdemos dois grandes personagens, mas seus legados estarão sempre presentes na continuidade da história. Não vou entrar no mérito se a Madison deveria morrer ou não, por ser protagonista, mas com certeza novos leques se abrem. Ela deixou seu recado e agora cabe aos que seguem na jornada cultivar seus ensinamentos. E mais uma vez FEAR se mostra provocador, não tendo medo de ousar. Agora só nos resta a nostalgia, revendo temporadas anteriores para saborear a interessantíssima relação de mãe e filho que essa série apresentou por meio de seus dramas familiares.

Conclusão

É impossível agradar gregos e troianos, mas FEAR se esforçou. Tenho acompanhando os comentários dos leitores aqui do site e também nas redes sociais, e vejo que estão todos bem divididos em suas opiniões. Muitos reclamam das diversas linhas temporais e da complexidade em compreender o que de fato acontecia, outros da morte prematura de Madison, e alguns ainda dizendo que a série deveria acabar agora porque a temporada foi um fracasso.

Escrevo aqui uma análise de cunho opinativo e pessoal, mas também usando sempre o bom senso, e como resultado desses 8 primeiros episódios, tenho que dar parabéns à série. FEAR se mostrou muito inteligente, fugindo do comum, desafiando os espectadores, brincando com linhas temporais e despejando muitos mistérios para serem desvendado, ou seja, ofereceu entretenimento em seu mais amplo alcance.

Teve defeitos? com certeza. A série não passou imaculada nessa sua primeira metade, mas seus pontos positivos superam os negativos e infelizmente fica difícil não compará-la com a série original. A derivada superou a série-mãe desde a segunda metade da 3ª temporada e corroborou com maestria essa superação com sua nova temporada. A audiência foi tratada como inteligência, nada de conteúdo mastigado, enlatado, estagnado. Dinamismo faz falta, e FEAR supriu nossas carências.

Nota da Primeira Metade da 4ª Temporada: 9,0

***

Bônus – O que Esperar da Segunda Metade da 4ª Temporada?

FEAR retorna em agosto desse ano, mas o que vem por aí é uma incógnita, restando apenas fazer especulações (de novo!). A série foi novamente zerada, um arco se fechou na primeira metade e agora vamos ver a interação e jornada do novo grupo que se formou em consequência dos acontecimentos da primeira metade. Os 8 estranhos Alicia, Strand, Luciana, Morgan, Jonh, June/Naomi, Althea e Charlie se unem em busca de um destino comum, e vai ser muito interessante ver quais aventuras e dificuldades eles irão encontrar em sua jornada no extremo sul dos EUA.

Só de olhar o rápido trailer do episódio 9, já fiquei bastante animado. Mais uma vez FEAR traz conteúdo novo e ainda não explorado ao universo de The Walking Dead – desastres da Natureza enfim dão as caras nesse mundo apocalíptico.

Enfrentar uma tempestade daquelas que devastam cidades inteiras nos EUA vai ser muito interessante e é algo novo e que nunca teve atenção (com direito a um zumbi literalmente voando com a força dos ventos). Afinal, não é porque os seres humanos foram quase extintos que os desastres naturais deixarão de acontecer. Se com a humanidade em seu apogeu já é difícil lidar com esses acontecimentos, imagina com a sociedade em frangalhos? Vamos aguardar o resultado.

Um Gaúcho apaixonado por cinema e séries. Acompanho The Walking Dead desde 2011. Atualmente vejo em FEAR um potencial muito maior do que na série original. John Dorie é melhor personagem criado no universo TWD.
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