O episódio “The Lost and the Plunderers” nos dá um pouco de esperança que a próxima temporada de The Walking Dead, que será comandada por Angela Kang, pode retomar os momentos áureos da série.

É difícil ter a real noção da qualidade do episódio devido ao baixo padrão estabelecido até o momento, mas não podemos ignorar que em termos de roteiro o décimo capítulo dessa temporada foi competente e teve seus bons momentos. Obviamente ainda há ressalvas. Juntamente com Angela, Channing Powell e Corey Reed assinam o roteiro, enquanto a direção ficou a cargo de David Boyd.

O início mostrando Rick e Michonne sentindo a recente perda de Carl é interessante, pois a cena composta com pouquíssimas falas evidencia as expressões corporais que por sua vez passam uma sensação de estranheza e até de incompreensão do momento.

Quando tentam apagar o fogo daquela estrutura que, segundo Michonne, Carl normalmente sentava no telhado, eles buscam algo simbólico, quase que não deixando a história do garoto ser apagada. Mas no fim aquele perigo desnecessário poderia ter levado a algo sério e isso pode ser visto como uma rima narrativa do próprio ato que causou sua morte. A ideia de que não existe mais espaço para atos bondosos, tão bondosos que chegam a ser utópicos e quase flertam com a ingenuidade, é bem pontuada no subtexto da cena.

Um dos elos fracos da temporada persiste nesse episódio: a fixação de Rick pelo grupo do Lixão. É um discurso tão enfático quanto ao dos personagens Morgan e Carol dentro de suas próprias narrativas e no fim não temos uma resolução que seja relevante para a história, especialmente em termos de substância de trama.

Jadis e seu grupo traíram a todos, usaram de seus trejeitos caricatos em demasia, foram utilizados apenas como muletas narrativas e desapareceram. Jadis provavelmente vai continuar no envolto na trama, mas me questiono qual a real importância desse grupo além de abalar um pouco a nossa visão de Rick em termos estratégicos.

A questão dos pontos de vista foi um elemento novo na série, mas por não trazer um grande peso narrativo acabou sendo um artifício meio vazio. Outras séries fazem isso de forma a servir a narrativa e trazer dualidade aos personagens (The Affair, por exemplo), mas aqui pareceu apenas uma construção estética e conceitual.

Jeffrey Dean Morgan e Steven Ogg atuaram muito bem, desde questões de entonação, expressão facial e corporal, enfim, foi um show de seus personagens, Negan e Simon, respectivamente. Como ressaltei anteriormente, o texto dado aos personagens foi muito bom e isso ajuda muito, mas esse episódio teve atuações genuinamente fortes e emocionantes. A questão de Simon questionar Negan também foi incrível, pois foi possível ver suas dúvidas enfatizadas através de suas expressões corporais e trejeitos. Foi deveras impressionante.

Vamos a outro elo fraco: a missão de Enid e Aaron. Em determinado momento da primeira parte da temporada todos os personagens resolveram deixar de seguir o plano inicial para focar em missões paralelas questionáveis.

Enid e Aaron foram para Oceanside para solicitar ajuda de uma comunidade que eles roubaram e de certa forma oprimiram, depois de ter sido solicitado que nunca mais voltassem. E para melhorar o clima, eles mataram a matriarca do grupo como cartão de visitas.

E além disso Enid tem possivelmente o pior discurso de persuasão da história. Simplesmente não faz sentido os argumentos que ela usa, mas possivelmente algum elemento Deus Ex Machina convincente vai ocorrer para que na hora exata em que Rick precisar de reforço a comunidade Oceanside apareça entonando um coro piegas sobre união e esperança. Sério?

Voltando a Simon, é evidente que ele está descontente com o personagem que Negan quer que ele interprete e sua raiva e consternação são evidenciados através da chacina da comunidade do Lixão.

E sobre essa comunidade destaco como uma linha simples de diálogo é o suficiente para criar dúvidas, dualidades e teorias que fomentam discussões: Simon menciona o heliporto e os painéis solares. É uma adição simples que coloca novas possibilidade de uma narrativa que fica no fundo, mas que pode ter valia em cena.

A atriz que interpreta Jadis, Pollyanna McIntosh, também trabalhou muito bem e ao despir-se pela primeira vez da estranheza de sua personagem, ela conseguiu atingir uma tridimensionalidade inédita na série.

Por fim temos o diálogo final entre Rick e Negan que evidencia quais são as melhores partes de The Walking Dead: os diálogos com foco no drama. Tem muita substância naquela sequência de diálogos e pontua bem qual o tom ideológico dos personagens.

Para finalizar, “The Lost and the Plunderers” tem duas grandes valias: os diálogos escritos por Angela Kang e as atuações incríveis dos atores que conseguiram transmitir sentimentos genuínos. Os pontos fracos são mais resquícios de roteiros passados, mas que não podem ser ignorados. Há uma melhora no produto final, mas essa construção deve manter-se constante para que o panorama geral também cresça.

Nota: 7/10

Aviso: Normalmente as críticas eram publicadas na segunda-feira, mas agora os textos passam para terça ou quarta-feira. Não é o ideal, pois a discussão em cima do episódio inevitavelmente esfria um pouco, mas é outro sistema de prazo adotado para que o episódio possa ser melhor digerido gerando assim discussões mais interessantes. Agradeço sua compreensão. E para sugestões de pauta e discussões mais aprofundadas sobre os episódios podem me contatar através do E-mail: [email protected] ou pelo Twitter @ferflorianoo.

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The Walking Dead 8ª Temporada Episódio 10

Título: The Lost and the Plunderers (Os Perdidos e os Saqueadores)

Temporada: The Walking Dead 8ª Temporada

Data de Estreia: 04/03/2018

Roteiro: Angela Kang, Channing Powell e Corey Reed

Direção: David Boyd

Audiência (EUA): 6.82 milhões de espectadores

Sinopse: Grupos unem suas forças e convergem em Hilltop; Aaron e Enid buscam por aliados. Simon trata situações pessoalmente.