Um primor televisivo. Foi o que testemunhamos no último domingo com o episódio de despedida de Rick Grimes.

Acertos que pareciam ter abandonando a série deram as caras em um tom avassalador que acertou em cheio até mesmo os mais pessimistas em relação ao atual momento em que The Walking Dead se encontra.

Acabamos de assistir um episódio memorável e talvez um dos mais belos já criados ao longo das nove temporadas. Despedida com a devida atenção, reverência e respeito ao protagonista desta série que a partir de agora, assim com FEAR, adentra uma nova zona, onde o desprendimento quase completo e rompimento com a adaptação original são mitigados. Uma nova história passará a ser contada no próximo domingo.

Uma Respeitosa despedida

Enfim descobrimos como se deu a tão aguardada despedida de Rick Grimes em The Walking Dead. Construída de uma maneira orgânica, interessante e precisamente emocionante, acompanhamos a saga agonizante de Rick desde sua queda que resultou no empalamento pelo vergalhão de ferro, até seu último momento, enquanto seus amigos assistiam sua aparente morte.

A peregrinação de Rick pelo seu inconsciente revendo personagens de extrema importância em seu passado e que há muito já nos deixaram foi um ponto alto. Primeiro foi a vez de Shane, onde ele pede perdão por ter lhe executado e ainda é provocado pelo fato de Judith ser filha de seu melhor amigo e ao mesmo tempo algoz. O clima nostálgico atingiu seu ápice nesse reencontro depois de 7 temporadas.

Logo na sequência foi a vez de Hershel (in memoriam – na trama e no mundo real), o sábio e bondoso conselheiro de Rick em momentos de extrema dificuldade em um passado remoto. Confesso que assistir Rick pedir perdão por não ter conseguido salvar sua vida, que foi ceifada de maneira brutal pelo asqueroso Governador, bem como pelas perdas de Beth e Glenn, foram de partir o coração.

É aquele momento que passa um filme na cabeça do espectador e que tira um peso, um nó da garganta, que estava entalado e foi devidamente expurgado depois daquela cena de sublime redenção. A atuação de ambos foi excelente e mostrou como o o senhor de cabelos brancos faz falta à série.

Conforme vai tendo essas imersões profundas que geram alucinações enquanto cambaleando, Rick se mantém atento e vigilante, lutando contra um destino cruel, uma situação extremamente desgastante, com uma horda imensa de errantes em seu encalço, não lhe dando nem mesmo o direito de divagar livremente por seu inconsciente.

Por derradeiro, Rick vislumbra um oceano de mortos, onde vê todas as pessoas que passaram por sua vida no apocalipse desfalecidas por todos os lados. Em meio a esta imponente cena, surge a heroica suicida Sasha, mostrando a Rick que sua família são todas as pessoas que ele carrega dentro de si.

Assim, sem ter mais folego nem forças, com suas terminações nervosas destroçadas, Rick chega até a ponte que estava sendo reconstruída com suas energias exauridas. E é nesse momento que seu grupo lhe encontra, e o desespero bem como a dura realidade do que está acontecendo diante de nosso olhos tomam conta e dão o tom dramático os acontecimento a seguir.

Mesmo com todos seus amigos tentando desesperadamente lhe ajudar, Rick, em um momento de lucidez, percebe que não existe forma de ser salvo, então mira seu revolver nas bananas de dinamite que estão caídas sobre a ponte e levando os errantes, a ponte e a si mesmo aos ares, restando assim a compreensão de sua morte para todos que assistiram aquela muito bem executada cena (parabéns Nicotero, pela súbita onda de talento que sua direção recebeu nesse episódio, queremos ver mais desse potencial).

Após a tormenta, Anne encontra Rick na margem do rio quase sem vida e o leva consigo no misterioso helicóptero para uma nova comunidade e assim damos o nosso adeus ao cowboy que por tantas noites de domingo embalou nosso entretenimento.

Brilhantemente o arco do personagem foi totalmente fechado. Rick Grimes conseguiu ficar cara a cara com todos os seus anseios e tormentos que lhe assombravam. Com uma atuação impecável, ele se despede da série podendo descansar em paz ainda que esteja vivo em algum lugar incerto e não sabido.

O aguardado acerto de contas

Desde a morte de Glenn, o ajuste de contas entre Maggie e Negan era indiscutivelmente aguardado. A fúria que a personagem vinha exalando nos primeiros episódios desta recente temporada estavam aflorados com uma belicosidade profunda. Depois de ver seu algoz ter a vida poupada e ficar expressamente proibida de manter contato com o então prisioneiro Negan, Maggie passou pelo diabo, vendo seu filho crescer sem o pai, prematura e barbaramente morto pelo taco de beisebol sedento.

Sem a menor dúvida, considero essa cena do ajuste de contas entre Maggie e Negan uma das mais viscerais que já testemunhei na série no âmbito dramático. Dois atores estupendos retratando o ápice emocional de dois personagens grandiosos. Tudo o que necessitava ser dito foi posto na mesa por ambos. Negan começa com um tom irônico, enquanto Maggie exala fúria de seus olhos e expressão corporal.

Por fim, Negan, um homem vazio e morto por dentro, implora por sua morte ao pés da viúva amargurada e mergulhada em furor. Ver aquele homem bárbaro, sádico e doentio atirado no chão como um verme envergonhado implorando para ter sua vida retirada, de algum modo, satisfez Maggie.

Naquele momento ela percebeu que seria castigo maior para ele se manter vivo e carregando todos os seus fantasmas do que morto, onde alcançaria uma plenitude que não lhe é merecida. Assim, o grande ajuste de contas foi enfim celebrado e de uma maneira inesperada. O sentimento de vingança se esvaziou com um profundo e reconfortante suspiro ao deixar a cela. A vingança está celada, a viúva agora pode viver em paz.

Um novo começo

Encerramos o episódio com um salto temporal de 6 anos, introdução de novos personagens e uma Judith crescida. Mas ainda é incerto o que esperar dos 11 episódios restantes que esta temporada irá nos proporcionar.

A introdução de novas pessoas é sempre algo interessante e que pode ser muito bem explorado, além de sabermos que logo mais os sussurradores irão dar as caras na tentativa de incrementar a trama.

O difícil vai ser trabalhar a lacuna que Rick deixa ao grupo bem como entender por qual motivo fático ele nunca retorná ao lar onde vive sua namorada e filha, uma vez que sabemos que ele está vivo.

A avaliação final é que o episódio foi perfeito, impecavelmente escrito, com uma direção conduzida com maestria e atuações poderosas. Não poderiam ter feito um final mais honrado, respeitoso e orgânico para o Sr. Grimes.

The Walking Dead nunca se desprendeu tanto das HQs como agora. Se os roteiristas forem ousados, inventivos e centrados podem criar uma narrativa poderosa para esse universo que segue com uma legião de fãs e pode ter consagrado nesse último episódio sua bala de prata para reerguer a série praticamente falida em termos de roteiro e narrativa por conta do sucessivo desgaste que lhe acomete.

Ventos auspiciosos sopram na trama. Nos resta aguardar o que será feito com essa dádiva que não vemos todos os dias por aí.

Nota: 10

The Walking Dead 9ª Temporada Episódio 5

Título: What Comes After (O Que Vem a Seguir)

Temporada: The Walking Dead 9ª Temporada

Data de Estreia: 04/11/2018

Roteiro: Matt Negrete e Scott M. Gimple

Direção: Greg Nicotero

Audiência (EUA): 5.4 milhões de espectadores

Sinopse: Rick é obrigado a encarar o passado enquanto luta para manter a segurança das comunidades e proteger o futuro que ele e Carl sonharam (provável último episódio de Rick).

Um Gaúcho apaixonado por cinema e séries. Acompanho The Walking Dead desde 2011. Atualmente vejo em FEAR um potencial muito maior do que na série original. John Dorie é o melhor personagem já criado no universo TWD.
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